Dress To fatura R$ 300 milhões em 2025 e projeta crescer cerca de 10% em 2026

A marca de Niterói fundada por Tathi Amorim e Rodrigo Braga tem 62 lojas no Brasil, vende em 38 estados americanos e elevou de 20% para 60% a fatia das coleções vendida a preço cheio.

Amérik

01/11/2026 09h00 · 1 de novembro de 2026

Dress To fatura R$ 300 milhões em 2025 e projeta crescer cerca de 10% em 2026

A Dress To, marca de moda de Niterói (RJ), faturou R$ 300 milhões em 2025 e projeta cerca de R$ 330 milhões em 2026, alta de uns 10%. Com 62 lojas no Brasil e mais de 300 pontos de venda nos Estados Unidos, a empresa decidiu crescer menos neste ano, segundo reportagem da Exame publicada em junho e assinada por Layane Serrano, na qual a marca aparece apenas como Dress.

A trajetória também foi contada pelo NeoFeed em 2022 e pela VIE Magazine, que cobriu a abertura da loja nos EUA. Como os números da empresa mudaram muito de um ano para outro, as três reportagens juntas ajudam a ver a curva inteira.

Das amigas ao Mercado Mundo Mix

Tathi Amorim trabalha em loja de roupa desde os 14 anos e fez parte da primeira turma de moda da Universidade Cândido Mendes. As primeiras peças eram vendidas para amigas. O marido, Rodrigo Braga, dava aulas de jiu-jitsu e tinha passado por uma empresa de tecnologia. O casal frequentava o Mercado Mundo Mix, feira que revelou uma geração de marcas brasileiras, e foi lá que lojistas multimarca conheceram a roupa de Tathi e passaram a comprar no atacado.

Em 2003, os dois assumiram a operação da então Dress To Kill, e a casa da família passou a funcionar como escritório, estoque e centro de distribuição.

De 4 para 70 lojas entre 2005 e 2008

Nesse intervalo, a marca saltou de 4 para 70 lojas, quase todas franquias, sem planejamento. Rodrigo contou à Exame que não entendia de administração, de planejamento nem de contabilidade: "Eu não tinha a mínima noção do que estava fazendo." A empresa cresceu e recuou algumas vezes no período, porque a operação não dava conta de tantas lojas.

No e-commerce, o mesmo movimento costuma aparecer em escala menor. Uma coleção vende bem, o Instagram responde e o dono dobra a verba de anúncio e o pedido de produção na mesma semana. Três meses depois falta caixa para pagar o fornecedor, enquanto a coleção que não girou fica parada no estoque.

Diretor financeiro e primeiro orçamento em 2017

A mudança veio em 2017, com a contratação de um diretor financeiro e a montagem do primeiro orçamento anual. Depois chegou o sistema de gestão.

Em 2019, a Dress To faturou quase R$ 140 milhões. Pouco antes da pandemia, havia concluído um rebranding e deixado o digital pronto para operar, o que permitiu acelerar o e-commerce quando as lojas fecharam. Mesmo assim, a receita caiu para R$ 112 milhões. A fábrica chegou a produzir máscaras e aventais hospitalares exportados para os EUA. Segundo Rodrigo, a pandemia trouxe maturidade para dentro da empresa.

Venda a preço cheio subiu de 20% para 60%

O dado de maior interesse para outras marcas está na reportagem do NeoFeed de 2022. A fatia de cada coleção vendida a preço cheio subiu de 20% para 60%, e a parcela que ia para bazar de outlet caiu de cerca de 80% para 40%. De acordo com a reportagem, a mudança veio de análise de demanda, com a produção ajustada ao que a cliente de fato compra.

Na época, a marca fazia 80% das peças em uma fábrica própria de pouco mais de 5 mil m² em Niterói, tinha ticket médio de R$ 320, o atacado respondia por 31% da receita e a roupa estava em mais de 600 multimarcas. Vestidos de malha e de tecido plano somavam um terço das vendas. A previsão para 2022 era fechar em R$ 172 milhões. Três anos depois, a receita chegou a R$ 300 milhões.

Para quem vende online, esse salto pesa direto no custo de mídia, porque a peça que termina na liquidação costuma receber anúncio pago duas vezes, primeiro para vender a preço cheio e depois para ser escoada com desconto.

Um estande de 4 m² em Nova York

A ligação com os EUA começou em 2017, quando o filho do casal foi estudar no país e Rodrigo testou pequenas exportações. Em 2024, a Dress To levou um estande de 4 m² à Coterie, feira de moda em Nova York, e voltou com cerca de 60 pedidos, entre eles o da Shopbop. A empresa montou uma operação em Miami, tocada pelo filho, e em 2025 abriu a primeira loja fora do Brasil, no Shops at Merrick Park, em Coral Gables.

Hoje são cerca de 20 funcionários nos EUA, clientes como Nordstrom, Shopbop e Hampden e mais de 300 pontos de venda em 38 estados. Por meio de multimarcas, a roupa também chega a Canadá, Portugal, Espanha, Itália, Líbano, Chile, Argentina e México. A operação no exterior representa cerca de 8% da receita, perto de R$ 30 milhões (US$ 6 milhões) previstos para 2026, e a meta é alcançar US$ 30 milhões só nos EUA até 2030.

Lá fora, o que vende é a estampa e a cor brasileira. A Exame compara o caso com o da Farm Rio, que abriu esse caminho antes. A lógica serve também para marcas menores, já que um comprador em Nova York não tem motivo para procurar numa marca brasileira a mesma peça que encontra na loja de fast fashion da esquina.

Eleição e Copa pesaram no plano de 2026

Com R$ 300 milhões em 2025 e quase mil funcionários, a Dress To projeta para 2026 cerca de R$ 330 milhões, com a margem líquida subindo de 14,7% para 15,5%. A justificativa foi o calendário do ano, com eleição, Copa do Mundo e incerteza na economia. Rodrigo descreveu 2026 como o ano em que a empresa decidiu ser mais austera.

Em outubro, o fluxo do varejo caiu 55% no domingo do primeiro turno, num cenário de Selic alta. A Dress To fez essa leitura ainda em junho e optou por proteger a margem.

O caminho da Dress To em escala menor

  • Orçamento antes da escala. Uma planilha simples, mês a mês, com meta de venda, verba de mídia, compra de estoque e margem esperada. A Dress To levou mais de dez anos para ter a primeira.
  • Medição da venda a preço cheio. Na Nuvemshop ou na Shopify, dá para levantar quanto da última coleção saiu sem cupom. Se a fatia ficar abaixo da metade, a compra de produto é o primeiro ponto a revisar.
  • Um canal de cada vez. Dobrar a verba de tráfego só faz sentido quando estoque, caixa e atendimento seguram o volume extra.
  • Teste pequeno antes do grande. Quatro metros quadrados de estande trouxeram a Shopbop. Para uma marca menor, o equivalente pode ser um marketplace novo, uma campanha em outra cidade ou uma linha cápsula, sempre com uma verba que a empresa aguente perder.
  • Identidade como argumento de venda. Estampa própria, cor, modelagem e a história de quem cria entram aqui. Foram a estampa e a cor brasileiras que abriram espaço para a Dress To nos EUA.

Fontes: Exame, 24/06/2026 Layane Serrano · NeoFeed, 10/09/2022 Juliana Bianchi · VIE Magazine, set/2025 loja em Coral Gables